Falando sobre a natureza do poder, Tirso de Molina dizia que “o poder imita o raio: ofusca e mata ao mesmo tempo”. No texto da Epístola de hoje encontramos profundos ensinamentos para a igreja de Jesus. A profundidade e a importância deste texto reside na saída que Paulo encontra para um enorme problema trazido por Onésimo, um escravo fugitivo e convertido à fé cristã. O que Paulo poderia fazer numa situação como esta? Ele poderia comprar o escravo e depois libertá-lo, ou então poderia simplesmente pedir que Filemom o perdoasse pela fuga e o recebesse de volta agora como alguém livre. Mas não é isso que acontece. Neste texto descobrimos que Paulo, mesmo dentro das limitações de seu tempo, queria ensinar algo ao amigo Filemom e, por extensão, a toda igreja. Ele nos fala aqui de um poder maior do que o militar, o econômico ou o político. Neste texto Paulo nos fala do poder do amor. No texto que acabamos de ler é possível encontrar pelo menos três verdades sobre o poder do amor.
Em primeiro lugar, o poder do amor acompanha a todos os que crêem em Cristo (v.5) No início da carta, já na saudação, Paulo agradece a Deus porque conhece não apenas a fé que Filemom tinha no Senhor Jesus, mas também conhecia seu amor por todos os santos, ou seja, pelos seus irmãos em Cristo. É preciso que sejamos capazes aqui de encarar o amor não apenas como um sentimento intimista e subjetivo proveniente do mundo das idéias de Platão, mas como uma realidade relacional concreta que produz gestos e atitudes igualmente concretas. Do verso 5 podemos responsavelmente deduzir que Filemom era alguém que tinha o costume de praticar e de exercitar este amor. O fato de que a fé e o amor estarem sendo citados juntos aqui aponta para a realidade de que esta nova condição relacional Deus-homem (realidade crida pela fé) não apenas é uma realidade (um ato) na vida de quem conhece a Deus, mas é também – potencialmente – gerador de uma nova vida vivida em amor a Deus e ao próximo.
As Escrituras falam desta possibilidade real que temos de amar ao próximo de uma forma bastante poética. Elas dizem que “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi outorgado” (Rm 5:5). Deste texto, e do exemplo de Filemom, concluímos que a prática do amor não apenas deve ser uma possibilidade, mas uma prática concreta esperada na vida de quem confessa que conhece a Deus.
Em segundo lugar, o poder do amor questiona as velhas estruturas (9-14) Por meio desta carta, particularmente entre os versículos 9 e 14, Paulo está pedindo, suplicando, implorando que Filemom reveja sua noção de autoridade. Ao pedir com tanta força, Paulo está procurando transformar Imperium em Autoritas, ou seja, ele sugere a Filemom que não exerça seu poder de soberano sobre Onésimo, mas que o receba ainda como seu escravo, exercendo autoridade sobre ele em função de sua dignidade. Embora na cultura judaica o escravo às vezes pudesse ser visto até como um membro da família, entre os gregos e os romanos não era assim. Pelo contrário, lá os escravos não tinham quaisquer direitos. Eles eram considerados como simples objetos, como coisas. Os escravos eram comprados e vendidos no mercado como gado. Seus filhos também eram considerados como propriedade do senhor. Caso um escravo fugisse e fosse recuperado, ele era marcado na testa, por meio de um ferro quente, com a letra “F” de fugitivus.
Ao pedir humildemente por Onésimo, Paulo está, de fato argumentando pela quebra da lei. Ele está sugerindo que a velha estrutura legal romana (o estatuto da escravidão) seja subvertida pela fé cristã. Esta subversão ocorre no momento em que Filemom transforma seu escravo Onésimo em seu irmão (v. 16). Ser irmão significa ter a mesma origem, o mesmo Pai, significa participar da mesma família e compartilhar os mesmos bens e dons. Admitir alguém como seu irmão implica em admitir não haver diferença essencial entre os dois.
Em terceiro lugar, o poder do amor constrói uma nova ordem social (15-17). Entre os versos 15 e 17 Paulo está não apenas se identificando com o escravo (“recebe-o como se fosse a mim mesmo” v. 17) mas atribuindo uma razão, um porque, um sentido a tudo o que havia ocorrido. Quando Paulo usa a expressão “a fim de que” no verso 15 ele está sugerindo que a providência de Deus transformara uma situação desconfortável para um senhor de escravos no primeiro século da era cristã, em uma grande oportunidade. Onésimo, que em grego significa “útil”, está finamente fazendo jus ao nome que tem. Os acontecimentos narrados nesta carta são úteis para ensinar aos cristãos de todas as épocas e lugares que uma nova ordem social pode ser construída. Em uma comunidade que se diz cristã (v.2) é preciso que haja espaço e lugar apropriado para a prática da reconciliação e do amor. Em Cristo não há separação, segregação, ou diferenciação. Todos somos irmãos independentemente de nossa condição social, nossa cor, etnia ou condição sexual.
Infelizmente (convenientemente?) os cristãos que vieram depois de Paulo aparentemente não compreenderam muito bem as conclusões lógicas do que ele estava propondo. Havia muitos escravos naquele período. Estima-se que em meados do primeiro século da era cristã eram quase sessenta milhões de escravos no Império Romano. Com tantos escravos assim era necessária muita rigidez, vez que o escravo era visto como um perigo em potencial. A lei romana punia severamente a rebelião. Caso um escravo matasse seu senhor, todos os escravos da casa deveriam ser mortos. Em 61 d.C., o prefeito de Roma Pedanius Secundus foi morto por um de seus escravos. Para se cumprir a lei, o Senado determinou que 400 escravos, entre homens, mulheres e crianças, fossem mortos. Infelizmente (convenientemente?) os cristãos que vieram depois de Paulo aparentemente não compreenderam muito bem as conclusões lógicas do que ele estava propondo. Ser cristão, significa amar; ser irmão implica em receber e acolher; receber a Cristo como Senhor significa rejeitar todos os modelos, padrões e paradigmas que excluem, humilham e destroem, para receber um outro, que se baseia no serviço mútuo. Oxalá fossemos capazes de manter nossas mentes livres destes modelos mundanos (Rm 12:1, 2) e reconhecêssemos ser apenas servos uns dos outros (Gl 5:13).
Revdo. Jorge Luiz Freire de Aquino
http://www.centroestudosanglicanos.com.br/anoc/decimo_quarto_domingo_depois_de_pentecostes.pdf
IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL – DIOCESE ANGLICANA DO RIO DE JANEIRO – 15º. domingo depois de Pentecostes – 05/09/2010 – Deuteronômio 30.15-20; Salmo 1; Filemom 1-20; Lucas 14.25-33
Todos os textos de hoje, nos falam sobre nosso comportamento em relação à humildade e à hospitalidade.
Sejamos sinceros: é muito incomum alguém gostar da companhia de pessoas arrogantes e que lhes tratam mal. O que nós gostamos mesmo é de sermos bem tratados, bem recebidos, bem acolhidos, principalmente quando se trata de grupos sociais, como as igrejas, por exemplo. Dificilmente alguém terá coragem para voltar em uma igreja ou em qualquer outra reunião de pessoas, onde tenha sido mal recebido!
Pessoas que vivem se gabando de tudo que fazem ou imaginam fazer, também afastam outras pessoas de perto de si. Não é normal que nos sintamos bem ao lado de quem só pensa em si mesmo, só elogia a si mesmo, acredita ter sempre a razão, colocando-se na posição de infalível. Pessoas arrogantes, orgulhosas e que não recebem bem aos demais, são muito difíceis de se conviver com elas.
Em Eclesiástico 10.12, nós lemos: “O orgulho começa quando a pessoa se afasta do Senhor, quando ela abandona o seu Criador.” Ser orgulhoso, portanto, de acordo com as palavras do texto acima, é um sintoma de afastamento de Deus. Ora, se Deus é amor (1Jo 4.8), quem está “afastado” Dele, está também afastado, distante, do “amor verdadeiro”.
Quem procura se aproximar de Deus, começa demonstrando amor ao próximo. O texto do Evangelho nos fala sobre as pessoas que vivem buscando status e poder para si mesmas, desconsiderando por completo que existem outros seres no mundo. Só pensam em si mesmas e em como satisfazer seus próprios interesses. Querem estar sempre em evidência e acabam por cometer gafes e passar vergonha. Mas isso não lhes importa, pois pessoas assim só vêem a si mesmas, conforme o exemplo citado por Jesus, ao falar sobre isso na primeira parte do texto de hoje.
Outro tema tratado hoje e que merece destaque especial, é a questão da hospitalidade. No texto de hoje de Hebreus 13.2, lemos: “Não deixem de receber bem aqueles que vêm à casa de vocês, pois alguns que foram hospitaleiros receberam anjos, sem saber.” A hospitalidade é um dom a ser buscado e cultivado. Nos dias de hoje, em meio a tanta violência, fraude, desonestidade etc, todos nós ficamos muito apreensivos diante de qualquer coisa ou pessoa desconhecida. Mas a advertência é clara: devemos exercitar a hospitalidade com todos e, em especial, com os menos favorecidos. Precisamos reaprender como ser hospitaleiros, assim como é o pessoal da roça, entretanto, adicionando a prudência que aprendemos na vida urbana. Precisamos continuamente nos reconstruir, reaprender, adaptar, sem nunca nos esquecermos da humildade, da hospitalidade e do amor fraterno.
Que Deus nos ajude em nossa caminhada.
Revda. Jocinéa Saldanha Perpetuo
IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL – DIOCESE ANGLICANA DO RIO DE JANEIRO – 14º. Domingo depois de Pentecostes – 29/08/2010 – Eclesiástico 10.12-18; Salmo 112; Hebreus 13.1-8; Lucas 14.1, 7-14
É bastante conhecido no meio cristão-evangélico, um antigo quadro que tenta representar essa passagem do Evangelho de hoje. Na referida pintura, seu autor tentou, equivocadamente, retratar o que vem a ser a “porta larga” e a “porta estreita”, sobre as quais Jesus se referiu. A porta estreita, segundo o pintor, é um portãozinho simples, modesto, onde um pregador está indicando sua entrada. Passando por ele, a pessoa encontra um caminho tortuoso, meio escuro, sem muita beleza, indicando as dificuldades para a pessoa entrar no céu mas que, no final desse caminho, vislumbra-se o que o pintor entendeu como sendo o paraíso. Até aí, ok: o caminho para o Reino de Deus é realmente de lutas e provações. Já na “porta larga”, há um portão bem bonito, uma estrada ampla, com bares, teatro e outras casas de diversão, tudo bem bonito e chamativo, mas que no fim, leva a um local que parece estar sendo incendiado, representando o inferno. O pintor, sem dúvida, deve ter tido muito boa vontade quando criou essa obra, contudo, vemos nela muitos equívocos, se a analisarmos literalmente, o que comumente é feito pelas pessoas de orientação fundamentalista.
Sabemos que nossa natureza humana vive em constante luta contra nossa natureza espiritual (Ef 5.17) e é sobre isso que Jesus se refere, quando alude às figuras da porta estreita e da porta larga. Entrar pela porta larga, é dar vazão à nossa natureza humana e pela porta estreita, é lutar para viver dentro dos padrões da nossa nova natureza: a espiritual.
No texto de hoje, do Antigo Testamento, lemos as advertências de Isaías: “Mas vocês estão confiando em mentiras e pensam que a desonestidade os protegerá.” (28.15). As autoridades de Jerusalém estavam se deixando dominar por sentimentos os mais perversos, oprimindo o povo e com a falsa impressão de que nada lhes aconteceria. Quantas não são as vezes nas quais vemos pessoas em situações semelhantes, envolvidas em injustiças, desonestidades etc e ainda pensando que “está tudo certo”? Esse é um exemplo de “porta larga”. Cuidemos para não fazermos o mesmo! É muito fácil ver o erro alheio, portanto, precisamos estar atentos aos nossos próprios atos. Por sinal, nesse ano de 2010, em que teremos eleições para vários cargos parlamentares, esse texto “cai muito bem”. Contudo, não nos esqueçamos de que a honestidade, a justiça, a bondade etc, começam dentro da nossa casa, em nós mesmos.
A “porta estreita” é a mortificação da nossa natureza humana que tende às coisas más, aos maus desejos, ao ódio e a tudo o que corrompe, destrói, magoa, rouba o direito alheio, fere a criação; ou seja: o lado perverso que todos nós temos, uns mais, outros menos. Lutar contra esses sentimentos, resisti-los e vencê-los, é lutar para entrar pela “porta estreita”. Essa “porta estreita” referida por Jesus, é andar “na contra-mão” de uma sociedade injusta e perversa. É lutar pela igualdade entre todos, contra o preconceito, contra toda forma de discriminação; lutar pela preservação da Natureza, pelo direito dos animais, dos idosos, das crianças, dos marginalizados. Entrar pela “porta estreita” é lutar para que o Reino de Deus, que já está dentro de nós (Lc 17.21), seja implantado na terra.
Pensar que “porta larga” refere-se às boas diversões, descontração, bebida, comida, roupas ou coisas do tipo enquanto não se dá o devido valor à ética, à honestidade, à seriedade de caráter etc, é uma grande “arma” que a nossa natureza humana e perversa usa para nos afastar do caminho do bem; cegando nossos olhos para o que Deus realmente espera de nós, oprimindo-nos e fazendo-nos opressores e, conseqüentemente, afastando-nos deliberadamente de Deus, do seu Reino e da sua justiça, fazendo-nos tomar a Santa Eucaristia para nossa própria destruição. Pensemos sempre nisso.
Que Deus nos ajude a entrar pela porta estreita da liberdade, da igualdade e da fraternidade.
Revda. Jocinéa Saldanha Perpetuo
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Diocese Anglicana do Rio de Janeiro – 13º domingo depois de Pentecostes – 22/08/2010 – Isaías 28.14-22; Salmo 46; Hebreus 12.18-19, 22-29; Lucas 13.22-30
Hoje é o domingo dedicado a homenagear os pais. O texto do Antigo Testamento, nos fala exatamente de um grande pai: Abraão.
O povo judeu tem muita reverência por esse homem. Nós também. Afinal, ele é a raiz de três grandes religiões: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.
Abraão era natural da cidade de Ur, na Caldéia, antigo nome da Babilônia, situada na região da Mesopotâmia, hoje Iraque.
Quando paramos para estudar a vida desse grande patriarca, na maioria das vezes, nem nos damos conta dessas questões tão importantes inerentes à vida dele. Durante praticamente a maior parte da história da humanidade, nós, seres humanos, brigamos uns com os outros para provar que a nossa religião é a melhor, a mais importante, a que está mais perto de Deus, esquecendo-nos de que somos todos irmãos, filhos do mesmo Pai.
Abrão teve seu nome mudado para Abraão, após uma experiência pessoal com Deus. Esse costume era comum na antiguidade e é preservado até os dias de hoje em algumas culturas e religiões, quando a pessoa passa por um determinado rito de iniciação. Como já dito anteriormente, de Abraão, o “Pai da Fé” (Hb 11.8-12), vieram três grandes religiões, dentre elas a nossa, o Cristianismo. Mas Abraão não pertencia a nenhuma delas, haja vista que nenhuma delas ainda existia em seu tempo. Ele era o que, preconceituosamente, chamamos de “pagão”. Sim, o Pai da Fé nasceu e viveu muitos anos em uma cultura totalmente diversa à que estamos acostumados e, mesmo depois de sua experiência com o Todo-poderoso, por certo, ele ainda continuou com muitas das suas práticas religiosas, pois era o que ele conhecia e Deus o aceitou assim mesmo. Sem jornais, sem Bíblia, sem Internet, sem televisão, rádio ou qualquer outro meio de comunicação, Abraão desenvolveu sua fé em Deus, o Criador e é exemplo para todos nós até os dias atuais.
Mas Abraão não foi apenas o Pai da Fé, ou a raiz das três maiores religiões do mundo, ele também foi filho. Um filho muito querido e obediente, apesar de alguns justos momentos de dúvida e fraqueza, pois, antes de qualquer coisa, ele era um ser humano, como cada um(a) de nós. Sim, Abraão duvidou que um grande milagre pudesse acontecer em sua vida, como qualquer um de nós possivelmente duvidaria, se estivesse em seu lugar. Mas Deus é maior que nossas dúvidas e nos ama mesmo assim. Entretanto, também vale ressaltar que ele não era o que popularmente chamamos de “vaquinha de presépio”, em alusão às pessoas que aceitam qualquer coisa sem reclamar, sem perguntar, apenas baixando a cabeça. Ele perguntava, duvidava, reclamava, mas dentro de si, havia um profundo respeito a Deus. Abraão foi um homem rico em todos os sentidos. E a sua maior riqueza não estava na terra, mas sim no céu.
No texto do Evangelho de hoje, Jesus nos fala sobre as riquezas da vida. riquezas no céu e na terra. As riquezas da terra podem ser efêmeras, transitórias; podem ser roubadas ou perdidas. Por isso, Jesus nos recomenda a que tenhamos riquezas no céu e essas riquezas são: fraternidade, solidariedade, misericórdia, justiça, bondade, paciência, conforme os frutos do Espírito, descritos em Gálatas 5.22-25 e em tantos outros textos bíblicos.
Que a vida de Abraão nos sirva de exemplo em nossa caminhada. que sejamos tão humanos como ele foi, mas que sejamos tão elevados da mesma forma. Que saibamos a hora certa de pedir, de questionar, mas que acima de tudo, que saibamos respeitar nosso Pai celestial. Que sejamos bons filhos e bons pais e mães, como foram Abraão e Sara. Que saibamos ensinar às futuras gerações os valores do respeito pela cultura e religião do outro, da reverência diante de Deus, do amor e cuidado para com a criação. Que sejamos bons filhos para nossos pais na terra e para nosso Pai do céu.
Revda. Jocinéa Saldanha Perpetuo
IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL – DIOCESE ANGLICANA DO RIO DE JANEIRO – 11º. domingo depois de Pentecostes – 08/08/2010 – Gênesis 15.1-6; Salmo 33; Hebreus 11.1-3, 8-16; Lucas 12. 32-40
Nos anos 80, fez sucesso no Brasil a novela “Roque Santeiro”. Um dos personagens era o “Zé das Medalhas”, um comerciante extremamente ambicioso, sempre buscando o maior lucro possível e que investia suas riquezas transformando-as em pequenas medalhas de ouro, cuidadosamente guardadas em sua casa. No último capítulo, ele morre, sozinho, sufocado por seu próprio tesouro. Sua vida foi medíocre. Pura ambição e vaidade.
A estória que Jesus conta sobre um homem rico e insensato é uma séria advertência à mediocridade da vida que nos envolve e que é denunciada pelo autor do Eclesiastes como vaidade e futilidade.
Os dois primeiros capítulos de Eclesiastes podem soar como pessimismo para alguns. Mas, na verdade, são extremamente realistas. O livro foi escrito por volta do século III aC durante o domínio grego na Palestina. Era uma época sem esperanças e sem horizontes. Todos os grandes projetos pessoais e coletivos sonhados no passado deram em nada. O reino de Davi e Salomão dividiu-se em dois; o reino do Norte foi destruído; o do Sul foi exilado. O povo vivia às voltas com invasores e dominadores que se revezavam de acordo com o andar da história. De que adiantava buscar conhecimento (1.12-20)? Para que realizar grandes obras e acumular riquezas e poder (2.4-14)? de que adianta trabalhar desesperadamente se não será possível desfrutar do trabalho? Por isso, o grande lema inicial do livro de Eclesiastes soa pessimista: “tudo é fugaz”, “tudo é vaidade”, “tudo é passageiro”. Parece que estamos diante de um autor que prenuncia o existencialismo e o desencanto atual da pós-modernidade.
Mas a própria pós-modernidade que tem nos ensinado a nos aproximarmos dos textos perguntando pelas suas margens ou entrelinhas pode nos ajudar a dar atenção a um pequeno detalhe: as lamúrias e reclamações do autor estão orientadas por uma perspectiva que se fixa nas coisas passageiras. Seu olhar está voltado para o que acontece “debaixo do sol” (1.3). De fato, “debaixo do sol não há nada novo” (1.9). Ao examinar as coisas que se passam “debaixo do sol” a conclusão é que realmente tudo é fugaz como uma corrida atrás do vento (1.14). Por isso, na seqüência do texto, o sábio busca discernimento na dinâmica do tempo (cap.3) e estimula os leitores a desfrutar a vida com tudo o que ela pode nos oferecer apesar das circunstâncias adversas. Ou seja, num tempo de desencanto, é preciso que nossos olhos não se fixem apenas no que acontece “debaixo do sol”. A única esperança é passarmos a contemplar a vida numa outra ótica que seria o “acima do sol”, aquilo que é eterno e que não se confunde com os projetos e realizações humanas.
No texto do Evangelho de hoje, após contar a parábola a respeito de um homem rico e poderoso, um empreendedor que trabalhava incansavelmente e acumulava cada vez mais, Jesus pergunta: “para quê, afinal?” O texto está muito ligado ao de Eclesiastes. Acúmulo de poder e riqueza é vaidade. Deus um dia nos chamará para prestarmos contas do bem maior que é a própria vida.
Nunca é demais lembrarmo-nos que, na vida o que interessa não é o que temos, mas o que somos, o que fazemos e construímos em nós. Isso sim é o que perdura para a eternidade. Trata-se do velho dilema entre Ter e Ser. Tillich dizia que o ser humano perdeu a “coragem de ser” e por isso valoriza mais a matéria, aquilo que perece, e não o que é imperecível.
As pessoas que mais marcaram a história da humanidade foram aquelas que transcenderam as preocupações puramente materiais. Sidarta Gautama era príncipe e abandonou tudo o que tinha para viver a experiência da busca espiritual, a experiência de Ser. Por isso foi e ainda é conhecido como Buda, o Iluminado. Albert Schweitzer, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1954, abandonou sua promissora carreira de teólogo na Europa para viver na África, cuidando dos pobres. E poderíamos multiplicar exemplos, lembrando-nos de Madre Tereza de Calcutá e São Francisco de Assis. Que vidas exemplares! Para Buda e São Francisco, o maior tesouro era a natureza. Para Schweitzer, o grande tesouro eram os pobres e sua paixão pela música de Bach. E em meio a essa vida dura de privações na África, ele passou os momentos mais preciosos que o levaram a descobrir os tesouros que a traça não corrói nem a ferrugem consome.
O próprio Jesus nada teve. Ele mesmo declarou que os pássaros tinham ninhos e as raposas suas tocas, mas que Ele não tinha onde reclinar a c àbeça. Viveu para ensinar que o importante não é ter, mas ser. E Ele, que nunca teve nada, foi a vida mais rica que o mundo conheceu. Por isso tantos se reúnem em torno de sua memória e seu nome.
Ao finalizar a parábola, Jesus diz que aquele que só pensava em acumular muito, iria ouvir um dia: “Louco! Essa noite te pedirão tua alma. O que tens armazenado nela?”
O que temos entesourado em nossa vida? Alguns imóveis? Bens materiais? Poder em alguma instituição? Dinheiro? Se for só isso, nossa vida é muito medíocre. A vida eterna, a vida que tem a marca divina, é vida que participa intensamente da defesa por outras formas de vida. E isso só é possível quando Deus é o centro de nossa vida. Quando nos preocupamos apenas conosco mesmos e com nossa segurança e estabilidade, estamos simplesmente fadados a reconhecer, um dia, que tudo foi “vaidade”, “futilidade” ou “absurdo”.
No texto da Epístola, há dois estilos de vida descritos aqui: um que “pertence à terra” (3.5) e tem a ver com desejos maus e incontroláveis, cobiça, ambição, mentira. Esse é o padrão do “velho homem”, da pessoa que ainda não se revestiu do poder da ressurreição do Cristo. O autor de Colossenses diz que nossa natureza humana, sem esse revestimento santificador conduz-nos a esse estilo de vida. Mas pelo revestimento de Cristo alcançado no batismo somos capacitados a renovar nossas vidas conforme a imagem do nosso Criador. Por isso, quando estamos revestidos de Cristo caem as barreiras culturais ou econômicas, porque Cristo derruba todos os muros e nos reúne em uma nova humanidade (5.11).
Os sentimentos recomendados a esse novo estilo de vida que nos é oferecido em nosso batismo e que devem ser estimulados são: compaixão, bondade, humildade, paciência, tolerância, perdão, etc. (5.12-13). Todos eles estão sob a inspiração maior do amor (v. 14) que nos chama à comunhão e à paz (v.15).
A exortação maior da perícope é que tais sentimentos ou atitudes que são primariamente pessoais, sejam capazes de nos contaminar a ponto de moldar a vida comunitária produzindo ações de graça (v. 15b), sabedoria e aconselhamento mútuos a partir da Palavra (v.16a) e louvor (v.16b). Quando enfatizamos mais isso do que o rancor, a mentira e a maledicência, a comunidade toda se edifica.
Colossenses nos ajuda a compreender que a comunhão cristã se estabelece quando enfatizamos o que realmente importa. Mas se nosso discurso está sempre motivado pela mentira e a maledicência, é porque ainda não compreendemos o significado de estarmos revestidos por Cristo. Vale a pena refletir: se nessa noite Deus nos pedir contas da nossa vida, o que teremos para apresentar?
Revdo. Carlos Eduardo Brandão Calvani
http://www.centroestudosanglicanos.com.br/anoc/nono_domingo_depois_de_pentecostes.pdf
IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL – DIOCESE ANGLICANA DO RIO DE JANEIRO – 10º. Domingo depois de Pentecostes – 01/08/2010 – Eclesiastes 1.12-14 e 2.18-23; Salmo 49; Colossenses 3.12-17; Lucas 12.13-21
Será que Deus ouve nossas orações? É claro que sim. Mas como é que vamos saber que Ele ouviu nossas orações, já que, mesmo quando recebemos o que pedimos temos duas vertentes? 1º) se recebemos por merecimento ou 2º) se de tanto a gente pedir, Deus nos atende com uma provação, como forma de aprendizado. Essas perguntas nos são feitas, porque muitas vezes não sabemos a forma correta de orar. Contudo, Deus é tão misericordioso que nos atende. É claro que no tempo Dele, pois Ele sabe de todas as coisas.
No evangelho de hoje, Jesus nos ensina como devemos orar. Essa passagem nos dá a resposta. Jesus nos dá o caminho das flores, na forma de como orar. No versículo dois do Evangelho, Jesus diz quem é Deus e como devemos começar uma oração. Para sabermos como devemos orar e tantas outras coisas na nossa caminhada de vida cristã, basta que usemos o nosso referencial, que é a Bíblia Sagrada. Será que Deus é como um amigo que nos dá aquilo do qual precisamos, só para pararmos de pedir? Não, não é por isso. Alguém poderia pensar assim, pois, afinal de contas, Ele cuida de muita gente. Ele não faz igual ao amigo, pois Ele é o Pai de cada um de nós, concedendo-nos aquilo do que necessitamos, na hora certa.
Deus, certamente, vai responder a todas as nossas orações, independentemente se sabemos ou não orar. Todavia, não custa nada, como bons cristãos, procurarmos aprender como orar da melhor forma. E nós devemos estar preparados para recebermos um “não”, porque sendo Ele um bom Pai, haverá momentos em que o Senhor vai nos dizer “não”, pois só o Ele sabe de todas as coisas. Às vezes pensamos ser mais fácil realizar o que desejamos sem a ajuda de Deus e acabamos metendo os pés pelas mãos. O que interessante é que, mesmo assim, Deus está por trás, deixando que as coisas aconteçam para que venhamos a aprender e tenhamos mais fé em sua palavra, pois Ele nos deu o livre-arbítrio. Nessas ocasiões, nossa natureza humana fala mais alto, nos levando a cometer erros. Que sejamos mais humildes e confiantes, pedindo discernimento a Deus, na hora em que formos orar. Amém.
ML. Daniel Alves da Silva
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Diocese Anglicana do Rio de Janeiro – 9º. Domingo depois de Pentecostes – 25/07/2010 – Gênesis 18.20-33; Salmo 138; Colossenses 2.6-15; Lucas 11.1-13
Desculpem o atraso na postagem…